Estou escrevendo este texto num domingo de manhã. Enquanto escrevo, vários agentes estão trabalhando em outras abas do meu computador, em projetos que não têm nenhuma relação com o que estou fazendo aqui.
Acho que esse detalhe explica bem o motivo deste texto.
Eu poderia ter começado a escrever, fechado o resto e ficado algumas horas concentrado nisso, como fiz durante boa parte da minha vida profissional. Só que hoje me parece quase irresponsável ter vários agentes disponíveis e não aproveitar o tempo em que estou escrevendo para fazê-los adiantar alguma outra coisa. A sensação é parecida com descobrir uma máquina ligada numa fábrica sem estar produzindo nada. Você olha e pensa: já que está ligada, por que não colocar alguma coisa ali?
Tenho percebido essa mudança também no corpo. Balanço as pernas quando estou concentrado e quando estou ansioso, desde a escola, e nunca consegui saber pelo movimento qual das duas coisas está acontecendo. Nos últimos meses, basta abrir o Claude ou o ChatGPT no meu computador de trabalho para o balanço começar. Quando noto, tento acalmar, mas é inútil: é só voltar a me concentrar que o embalo está lá de novo. Às vezes não é só uma perna, são as duas. Metralhando o chão. TA TA TA TA TA TA.
Meu trabalho teve outra cadência durante muito tempo. Passei mais de vinte anos desenhando interfaces e trabalhando com equipes de designers, e grande parte desse trabalho acontecia dentro de uma sequência simples. Eu passava algumas horas num arquivo, mandava algo para outra pessoa, esperava o desenvolvimento, recebia de volta, revisava.
Não estou romantizando essa época. Havia prazo ruim, cliente ligando, arquivo chegando tarde. Mas havia também etapas que ninguém conseguia acelerar, por mais pressa que eu tivesse.
O voice-over e a música ainda não estavam prontos, e o vídeo teria que esperar. O redator ainda estava construindo os textos. O designer precisava até o dia seguinte para implementar uma ideia nova. O programador dizia que só na semana que vem. Existia um limite físico que se impunha como fricção na construção de qualquer coisa.
A promessa
Qualquer reflexão minha sobre os efeitos negativos de trabalhar com agentes precisa começar por uma constatação óbvia para quem usa agentes todos os dias: a produtividade aumenta de forma bizarra.
Projetos que levariam meses avançam em uma semana. Produtos próprios que ficariam anos numa lista de ideias começam a ganhar forma. Consigo entrar em programação, infraestrutura, SEO, analytics ou automação e avançar o suficiente para testar hipóteses que, há pouco tempo, exigiriam contratar especialistas caros antes mesmo de saber se valiam a pena.
Continuo sem ser especialista em várias dessas áreas. O que mudou foi o tamanho do território onde consigo me aventurar antes de precisar de ajuda humana.
Para alguém que gosta de criar coisas, esse prazer é difícil de descrever sem parecer exagero. Uma ideia que aparece durante o café pode ter uma primeira versão no mesmo dia.
O que me interessa aqui é o que eu fazia com o tempo supostamente economizado.
Se alguma coisa que antes consumia um dia ficava pronta em algumas horas, surgia espaço para começar outra. Quando essa também acelerava, aparecia uma terceira. Aos poucos, a produtividade deixou de ser uma forma de terminar o trabalho mais rápido e passou a aumentar a quantidade de trabalho que parecia razoável fazer.
Xingqi Maggie Ye e Aruna Ranganathan, pesquisadoras de Berkeley, passaram oito meses observando uma empresa de tecnologia com cerca de duzentos funcionários. O que viram foi gente assumindo mais funções, trabalhando em intervalos que antes eram pausa e deixando vários processos de IA rodando ao mesmo tempo. Boa parte disso acontecia voluntariamente. A nova capacidade tornava mais coisas possíveis e as pessoas iam ocupando o espaço.
É simples. O agente termina rápido. Então é só abrir outro.
Seis abas
Nunca sei dizer em que momento o uso razoável de agentes vira uma pequena central de operações. Acontece aos poucos.
Coloco um agente para investigar o SEO de um produto. Como ele vai levar alguns minutos, peço a outro que resolva um bug. Lembro que tenho o escopo de um projeto novo da agência para analisar e começo uma terceira conversa. Ainda existe uma imagem de header para produzir e um site em desenvolvimento. Nenhuma dessas decisões, isoladamente, parece exagerada. Todas parecem ótimas decisões de produtividade.
Depois de algum tempo tenho cinco ou seis trabalhos acontecendo ao mesmo tempo, e eles terminam em ordens que eu não controlo.
Cada retorno traz o trabalho em si, as justificativas do agente para o que fez e o que ainda falta para terminar. Quase nada chega pronto na primeira vez. Peço ajustes, mando executar de novo, e quando termino de revisar uma aba a outra já tem algo novo para me mostrar, sobre um assunto sem nenhuma relação com o anterior.
Sophie Leroy estudou o que acontece quando mudamos de tarefa antes de nos desligarmos da anterior. Parte da atenção continua presa ao que ficou para trás, fenômeno que ela chamou de attention residue, e o desempenho na tarefa seguinte cai. É fácil reconhecer isso numa situação banal: você lê um e-mail irritante, fecha a janela e tenta escrever outra coisa. O e-mail sumiu da tela. Da cabeça, nem sempre.
Os agentes criaram para mim uma versão industrial desse problema. Cada aba mantém um processo vivo sem que eu precise pensar nele. O computador faz isso muito bem; meu cérebro não faz nada parecido. Quando volto para a aba, preciso recarregar aquele pequeno universo inteiro: objetivo, decisões anteriores, dúvidas, riscos, próximos passos.
O feed
Enquanto as abas trabalham, tenho dificuldade de esperar. Abro o Instagram e em dois minutos vejo seis reels sobre seis assuntos que não têm nada a ver um com o outro.
Foi olhando para isso que percebi que a tela do celular e a tela do computador tinham ficado parecidas. Itens curtos, de assuntos sem relação, chegando fora de ordem, pedindo alguns segundos de avaliação antes de dar lugar ao próximo. Uma fila que nunca chega a zero. Minhas abas funcionam como um feed.
A diferença é que esse feed eu mesmo produzo. No Instagram, um algoritmo decide o que aparece. No computador, cada item fui eu que disparei, e sou eu que vou rolar por ele em seguida. Sou quem posta e, na grande maioria das vezes, quem consome.
Depois que percebi isso, comecei a enxergar o mesmo formato no resto do dia. Tento ouvir um podcast enquanto os agentes trabalham, para ocupar o tempo ocioso, e o podcast vira mais uma aba, que vai ser interrompida assim que algum agente terminar. Faço café ouvindo notícias da política brasileira e tomo banho ouvindo notícias de tecnologia. À noite jogo videogame com o resto do episódio que não terminei de manhã tocando por cima.
Seria injusto culpar os agentes por tudo isso. Smartphones e feeds infinitos chegaram antes. O que os agentes fizeram foi levar esse formato para um lugar que ainda resistia a ele, o trabalho profundo e contínuo. Antes eu fragmentava meu tempo livre e protegia, mais ou menos, as horas em que produzia. Agora trabalho, descanso e distração têm a mesma forma.
E começo a notar uma incapacidade específica. Tenho dificuldade de ver uma coisa por inteiro.
Duas horas no Figma
Outro dia abri um projeto no Figma e comecei a desenhar uma interface como fiz milhares de vezes ao longo da vida.
Passei cerca de duas horas testando possibilidades, mexendo em proporções, tentando resolver relações visuais que ainda estavam confusas. Era um trabalho exigente e, em alguns momentos, frustrante. Em determinado momento percebi que minhas pernas estavam paradas.
Eu estava concentrado e estranhamente tranquilo.
Quando desenho dessa forma, existe continuidade. Uma tentativa informa a seguinte. Às vezes fico dez minutos olhando para algo antes de entender por que está ruim. Posso acompanhar uma ideia até ela começar a revelar os próprios defeitos. Há um prazer específico em ficar tempo suficiente dentro de um problema para enxergar coisas que não estavam disponíveis no primeiro olhar.
Foi quando me bateu uma nostalgia de um tempo em que dava para mergulhar inteiramente numa coisa só. Mas o canto do feed é hipnótico demais, e eu volto para ele.
O prazer de fazer existir
Se trabalhar dessa maneira fosse apenas cansativo, eu já teria escrito “PROIBIDO IA AOS DOMINGOS” num papel e colado na parede.
A dificuldade é que estou vivendo uma das fases criativamente mais estimulantes da minha vida. E é isso que torna o canto insuportavelmente sedutor.
Há algo quase bíblico em usar linguagem para dar forma a coisas. Escrevo algumas instruções e, pouco depois, aquilo tem forma: uma imagem, um vídeo, uma ferramenta, um pedaço de software que não existia. Sempre gostei de imaginar coisas que poderiam existir. Durante muito tempo, a maior parte dessas ideias encontrava rapidamente restrições bem pouco poéticas: orçamento, equipe, conhecimento técnico, semanas disponíveis no cronograma.
A imagem que mais aparece na minha cabeça é a de reger uma orquestra. O maestro não toca nenhum instrumento. Cada músico tem na estante só a própria parte, e ele é o único com a partitura inteira. Não preciso tocar cada instrumento, mas preciso saber onde estamos tentando chegar, perceber quando algo destoa, pedir outra interpretação, remover exageros e, às vezes, aceitar que a minha ideia inicial estava errada.
A autoria compartilhada não me incomoda. Depois de vinte anos trabalhando com outros designers, seria estranho descobrir agora um apego romântico ao artista solitário. Muito do melhor trabalho que fiz nasceu de repertórios misturados, críticas incômodas e ideias de outras pessoas que eram melhores que as minhas.
O que mudou radicalmente foi a quantidade de experimentos que posso fazer. Posso construir uma coisa só para descobrir que não funciona. Posso investigar um tema porque fiquei curioso e descobrir que ele é bem mais complexo do que parecia. Muitos desses projetos vão acabar esquecidos numa pasta, como experimentos de laboratório que não deram certo. Não considero o tempo perdido. Pensei, construí, vi onde quebrava e aprendi alguma coisa. Para mim é uma nova espécie de entretenimento.
Mas, quando releio, “entretenimento” começa a parecer a palavra errada. Se construir virou entretenimento e o entretenimento virou mais uma aba, fica difícil saber em que momento do dia estou descansando.
Uma fábrica que nunca fecha
Estou vendo uma série à noite com minha esposa. Ela levanta para organizar alguma coisa. Eu também: abro o computador para organizar outra.
Não preciso abandonar a série. Deixo uma instrução boa para um agente, fecho a tela e volto para o sofá antes dela. Enquanto durmo, alguma coisa estará sendo adiantada.
Do ponto de vista da produtividade, é o sonho.
Meu pai sempre dizia que, enquanto uns dormem, outros trabalham.
Na época era um alerta. Hoje parece descrição de produto.
E sempre existe alguma coisa. O limite do que um agente pode fazer por mim deixou de ser orçamento ou tempo e passou a ser a minha vontade de criar coisas novas.
Outro dia decidi que seria mais agradável ter uma interface própria reunindo os analytics dos meus sites do que continuar usando o Google Analytics, cuja interface sempre me pareceu uma punição desproporcional pelo simples desejo de saber quantas pessoas entraram num site. Há alguns anos eu teria pensado nisso e seguido a vida.
Agora posso começar.
E comecei, às dez da noite, sem cliente pedindo, sem prazo, sem nenhum problema urgente sendo resolvido. A existência de uma capacidade barata de execução transformou uma preferência vaga num projeto.
A maior parte das conversas sobre IA pergunta quanto tempo economizamos em tarefas que já fazíamos. Tenho me interessado mais pelas tarefas que passam a existir porque ficaram baratas. Uma interface pessoal de analytics que ninguém precisava, aparentemente nem eu, é uma delas.
Existe uma diferença importante em relação às tecnologias que invadiram nosso tempo livre antes. O e-mail trouxe o trabalho até nossa casa. Slack e WhatsApp deixaram outras pessoas nos encontrarem em horários que antes tinham alguma proteção social. Nos dois casos, alguém vinha até nós.
O agente poderia ficar eternamente imóvel. Sou eu que vou à sua procura.
E ele não oferece nenhuma ajuda para eu parar. Não fica cansado às seis, não acha estranho receber uma tarefa no sábado, não teve uma semana difícil nem tem filhos acordando cedo. Fica ali, sempre disponível, esperando que eu pense em mais alguma coisa.
Mas veja só: passei os últimos treze anos dirigindo designers e nunca pedi a nenhum deles que começasse um projeto novo às dez da noite, muito menos sem cliente e sem prazo, só porque eu tive uma ideia aleatória. Existe outra pessoa do outro lado, com desejos diferentes dos meus, e isso exige respeito e tolerância com o que é diferente.
Só agora percebo que aquela pessoa protegia duas noites, a dela e a minha. Sem ninguém do outro lado, o pedido absurdo sai de mim e é aceito por mim. O agente passa a madrugada trabalhando e não perde nada com isso. Na manhã seguinte, quem abre o computador antes do café para revisar o que foi feito sou eu.
A culpa dos tokens
A parte mais constrangedora disso tudo é o que sinto quando a semana acaba e percebo que não usei todo o limite de alguma ferramenta.
Tokens sobrando. Evidentemente, uma irresponsabilidade.
Escrever torna o comportamento mais absurdo do que senti-lo. Ninguém vai confiscar os tokens que sobraram como punição por baixa performance. Mesmo assim, uma parte da minha cabeça olha para aquela capacidade restante como algo que poderia ter sido aproveitado. Poderia ter feito mais uma pesquisa, deixado um agente revisando alguma coisa durante a noite, testado aquela ideia de terça-feira.
Um limite criado para restringir consumo começou a funcionar como meta.
O juiz
No fim de um dia assim, a última coisa que sobra com energia é o julgamento. E é a primeira que começo a terceirizar. Quando fico impaciente com uma decisão, peço para outro modelo revisar o trabalho do primeiro. Funciona na maior parte das vezes, e tenho certeza de que erros estão passando sem que eu saiba quais.
A promessa era que a máquina executaria e o humano julgaria. Quando comparei esse trabalho a reger uma orquestra, estava pensando no prazer. A comparação tem um lado mais cruel. Se a máquina ficou com os instrumentos, o que sobrou para mim foi ouvir a peça inteira, a única coisa que justifica o maestro estar na sala. E é exatamente essa capacidade que o feed corrói. Quando canso de tentar ouvir o conjunto, peço a um dos músicos que reja no meu lugar.
As duas horas no Figma talvez tenham sido as únicas da semana em que fiz de fato o trabalho que me sobrou.
O sétimo dia
“Use menos IA” me parece tão interessante quanto recomendar a alguém em 2000 que usasse menos internet. Resolve um sintoma e ignora a transformação.
A versão mais séria desse argumento é reinstalar a fricção de propósito, com coisas como horário para parar ou dias sem agentes. Ela é mais forte porque não pede que eu abra mão da capacidade, só que recoloque à mão os freios que a execução cara me dava de graça. E mesmo assim tropeça num detalhe. Aqueles freios funcionavam porque não dependiam de mim. O designer demorava porque demorava. O programador olharia na semana que vem porque tinha outras coisas para fazer. Um limite que eu mesmo imponho precisa vencer, toda noite, a pergunta de por que deixar a máquina parada.
Estou envolvido na criação de um aplicativo de Bíblia, e o Gênesis virou o placeholder de algumas telas. Depois de tantas horas ajustando a interface do leitor da bíblia, uma passagem começou a parecer menos provisória.
Depois de seis dias criando, Deus olha para tudo o que fez, acha bom e descansa no sétimo. É a primeira vez que o texto fala de descanso, e quem descansa é o único personagem que não tem nenhum motivo para se cansar. O que ele faz no sétimo dia é declarar a obra suficientemente feita para ser deixada em paz.
E antes de parar, ele olha para tudo. Vê a obra por inteiro.
Talvez seja isso que falta, mais do que um freio. Durante muito tempo, o meu cansaço e o dos outros decidiam por mim onde o dia acabava. A máquina não cansa, e por isso não decide nada. O que resta é um critério de suficiência, e ele só existe para quem consegue olhar para o conjunto e reconhecer que já está feito o bastante. É aqui que o problema se fecha sobre si mesmo. Para parar, preciso ver a obra inteira. Para ver a obra inteira, preciso ter parado.
Os seis primeiros dias vêm naturalmente. No sétimo, descanso como um pecador reincidente: prometendo que na semana seguinte será diferente.
Domingo
Quando termino este texto, percebo que olhei várias vezes para as outras abas.
Seria bonito dizer que resisti. Mas não.
Um dos agentes tinha terminado. Li o resultado, achei um problema, escrevi outra instrução e voltei para cá. Em algum momento tive uma ideia para outra coisa que poderia colocar para rodar depois. Isso aconteceu enquanto eu escrevia sobre o problema de fazer exatamente isso, o que pelo menos me poupou o trabalho de procurar uma imagem para o final.
Não quero voltar à forma como trabalhava antes. Tenho mais liberdade para criar do que jamais tive, e é difícil imaginar abrir mão disso voluntariamente.
Só desconfio que fomos rápidos demais em tratar toda capacidade adicional como tempo liberado. Para mim ela se parece mais com um aumento enorme do número de portas que posso abrir. Conseguir abrir dez não significa ter atenção para entrar direito em nenhuma delas.
Provavelmente teremos agentes muito mais autônomos nos próximos anos. Vou usar vários. Provavelmente mais do que seria prudente.
A parte que ainda não sei resolver é o que acontece do lado de cá.
Como conviver com uma equipe que nunca dorme sem começar, aos poucos, a viver como se eu também não precisasse dormir?
Já fui e voltei muitas vezes para cá. Já são sete da tarde de domingo, e tenho três agentes me esperando. Será que fizeram tudo certinho?
Leituras que informaram este texto
- Sophie Leroy — Why is it so hard to do my work? The challenge of attention residue when switching between work tasks
Dois experimentos sobre o que acontece com a atenção quando mudamos de uma tarefa para outra antes de terminar a anterior. O conceito de attention residue ajuda a entender por que trabalhar com vários agentes ao mesmo tempo cansa tanto. - Xingqi Maggie Ye e Aruna Ranganathan — pesquisa sobre IA e intensificação do trabalho
Etnografia de oito meses em uma empresa de tecnologia com cerca de duzentos funcionários, com observações sobre expansão de escopo, trabalho ocupando pausas e múltiplos processos de IA rodando em paralelo. A pesquisa ainda está em andamento, o que vale considerar ao interpretar os resultados.